Não começamospela ferramenta.Começamospela pergunta.
Cada problema exige um desenho de pesquisa adequado.
Na Crivo, métodos, fontes e instrumentos são escolhidos a partir da pergunta que queremos responder — e dos limites das evidências que conseguimos produzir.
01 / Método como escolha
O método dependedo que precisamoscompreender.
Uma pesquisa sobre opinião pública não exige necessariamente o mesmo desenho de uma investigação sobre desigualdades comunicacionais, inteligência artificial ou circulação de narrativas.
Por isso, a Crivo não parte de uma ferramenta pré-definida. Definimos primeiro o problema, a pergunta e o tipo de evidência necessário. A partir daí, construímos o desenho de investigação.
02 / Da pergunta à interpretação
Um percurso,não uma receita.
Os momentos a seguir descrevem como uma investigação costuma se construir. Eles não são etapas fixas nem lineares: uma pergunta pode ser reformulada depois das primeiras observações, e um limite descoberto na análise pode obrigar a rever o desenho.
O que precisaser compreendido?
A investigação começa com um problema real. Antes de escolher dados ou ferramentas, buscamos delimitar o fenômeno, o contexto e aquilo que ainda não conseguimos explicar adequadamente.
O que exatamentequeremos saber?
Um problema amplo precisa ser transformado em uma pergunta investigável. A pergunta orienta o recorte, as fontes, os métodos e os limites das conclusões possíveis.
O que já sabemossobre o fenômeno?
Nenhuma investigação começa do zero. Conceitos, pesquisas anteriores, literatura especializada e conhecimento acumulado ajudam a delimitar o problema e a interpretar aquilo que será observado.
A profundidade dessa revisão é proporcional à natureza da investigação — nem todo trabalho aplicado exige o mesmo tratamento teórico de uma pesquisa acadêmica.
Que estratégiapode responderà pergunta?
É aqui que definimos como o fenômeno poderá ser observado. O desenho pode combinar diferentes abordagens conforme a pergunta, o recorte e as evidências disponíveis.
- Análise longitudinal
- Estatística descritiva
- Análise comparativa
- Análise documental
- Revisão de literatura
- Métodos computacionais
- Simulação experimental
O que podemosobservar?
Fontes diferentes revelam dimensões diferentes de um fenômeno. A escolha das fontes precisa considerar origem, cobertura, qualidade, disponibilidade, contexto e limitações.
Quando uma fonte só oferece faixas em vez de valores exatos, trabalhamos com faixas e dizemos isso — em vez de produzir uma precisão que o dado não tem.
- Dados públicos e oficiais
- Documentos
- Plataformas digitais
- Dados eleitorais
- Dados territoriais
- Conteúdo comunicacional
- Observação sistemática
Dadonão éevidênciapor si só.
Dados precisam ser contextualizados, tratados e interpretados dentro de um desenho de pesquisa. Volume não substitui qualidade, e precisão computacional não elimina as limitações da fonte.
03 / Da observação à interpretação
Como transformamosobservações emmaterial analisável?
Dados e documentos podem exigir organização, limpeza, classificação, codificação ou transformação antes da análise.
As decisões tomadas aqui precisam ser compatíveis com a pergunta — e consideradas depois, na interpretação. Uma regra que seguimos: ausência de dado não vira zero. O que não foi observado é registrado como não observado, com o motivo.
Uma fonteraramente contaa história inteira.
Quando o desenho permite, diferentes fontes, métodos ou perspectivas podem ser confrontados para observar o fenômeno por ângulos distintos.
Confrontar fontes não é procurar confirmação: também serve para revelar divergências, lacunas, contradições e limites.
O que as evidênciasnos permitem afirmar?
Analisar não é apenas calcular. A interpretação relaciona evidências, contexto, conceitos e limites para construir uma resposta proporcional àquilo que foi efetivamente observado.
Em nossas pesquisas, isso aparece como uma separação explícita entre o que a observação autoriza descrever e o que ela não autoriza concluir.
A conclusãonão pode ser maiorque a evidência.
04 / Limites
Todo métodotem limites.Parte do rigoré torná-los visíveis.
Toda investigação possui limites relacionados ao recorte, às fontes, ao período observado, às técnicas utilizadas e às inferências possíveis.
Explicitar limites não enfraquece uma pesquisa: define corretamente o alcance de suas conclusões. Por isso publicamos as limitações junto dos resultados — inclusive quando elas reduzem o que gostaríamos de poder afirmar.
Resultados negativos também são preservados. Quando um experimento nosso teve a hipótese refutada pelos dados observados, o resultado foi mantido e publicado. Um método não garante que a hipótese se confirme; garante que a resposta seja honesta.
Distinçõesque sustentamos.
Boa parte do cuidado metodológico está em não deixar que uma coisa passe por outra:
05 / Auditoria do próprio trabalho
Revisamoso que produzimosantes de publicar.
Antes de publicar uma página, um indicador ou um resultado, confrontamos cada afirmação com aquilo que efetivamente existe — no dado, no código, na fonte. Nenhuma afirmação é aceita sem que se localize o que a sustenta.
Essa revisão já nos obrigou a corrigir o nosso próprio trabalho: a suspender a importação de um indicador cujos valores estavam implausíveis, a reformular uma pergunta que pressupunha causalidade, a rebaixar uma afirmação para “pretendido” porque ainda não estava demonstrada e a refazer um cálculo que produzia um resultado artificial.
Os erros encontrados são registrados com a correção correspondente. É menos confortável — e é o que permite confiar no que permanece de pé.
“O que foi posto na fórmula não pode voltar como descoberta.”
06 / Rastreabilidade
Uma análise precisapoder ser examinada.
Sempre que o desenho permite, registramos a origem de cada dado, a data em que foi coletado e as decisões metodológicas que levaram a um resultado.
Na pesquisa eleitoral em curso, isso tomou a forma de uma metodologia versionada e de cortes semanais com identificador citável: quando uma fórmula muda, ela ganha uma versão nova, e uma correção gera uma revisão sem apagar o registro anterior.
Nem toda investigação permite o mesmo grau de reprodutibilidade — fontes fechadas, dados sensíveis ou observação não repetível impõem limites. Onde isso ocorre, o limite é declarado.
07 / Métodos computacionais
Computação ampliao que conseguimosobservar.
Métodos computacionais podem ampliar a capacidade de coletar, organizar, processar, comparar ou simular fenômenos em escalas difíceis de acompanhar manualmente.
Mas capacidade computacional não substitui pergunta, teoria, desenho, contexto ou interpretação. A tecnologia entra depois do problema — nunca antes.
Quando usamos modelos de linguagem, eles têm função auxiliar e verificável. Numa das nossas rotinas, por exemplo, o modelo apenas sugere uma pista, uma verificação automática confirma se ela existe de fato, e uma pessoa decide se é válida. O modelo não produz evidência sozinho.
A inteligência artificial também é objeto de pesquisa para nós, não apenas instrumento — são coisas distintas e as mantemos separadas.
08 / Método em prática
O percursonuma pesquisa real.
A pesquisa em curso sobre desigualdades na comunicação política digital mostra como esses momentos se organizam quando aplicados a um problema concreto.
Diferenças de recursos entre candidaturas podem se converter em diferenças de capacidade de comunicar — e não se sabe que efeito a inteligência artificial generativa tem sobre isso.
Em que medida as desigualdades de recursos estão associadas a assimetrias de capacidade comunicacional digital, e a adoção da IA generativa reduz ou amplia essas diferenças?
Observação longitudinal, com a candidatura acompanhada semana a semana durante o período eleitoral.
Dados oficiais do TSE, biblioteca pública de anúncios da Meta e observação de perfis públicos com validação humana.
O desenho descreve associações e não autoriza inferência causal. Parte do gasto com publicidade não é rastreável em repositórios públicos, o que restringe o que se pode observar.
Qual é a perguntaque precisamosinvestigar?
O desenho de uma pesquisa começa pelo problema que precisa ser compreendido — não pela ferramenta que queremos utilizar.